. Sexta-feira, Março 30, 2007 .
Ela acordou dizendo que queria divórcio. Não agüentava mais o ronco e o pé gelado dele, estava cansada de passar o dia recolhendo roupas sujas espalhadas pela casa, de ver a geladeira cheia de cervejas e ainda passar o Natal na casa da mãe dele.
Nem sempre foi assim, no início tudo era maravilhoso, ela ria a cada arroto que ele soltava, fazia cócegas nele quando ele encostava seu pé gelado nas coxas dela. Mas com o tempo, tudo foi se transformando em rotina, e a rotina logo se transformou em irritação, que logo virou um desejo de deixá-lo pobre e infeliz, ou seja, divórcio.
- Chega!! Cansei! Vou embora e vou levar TUDO!
- Hã? Que?! Que horas são? Hoje é Domingo, mulher *ARROUT*... Me deixa dormir mais um pouco.
- Não, não deixo! Vou embora agora e não deixarei nada para você!
- Como nada!? Eu não posso viver com nada, tenho que ter alguma coisa...
- Se vira! Vou levar seu gosto por música, sua criatividade, sua capacidade de fazer amigos...
- Opa! Pera lá! Vamos dividir isso então, não é assim, você não pode levar tudo que me faz ser eu.
- Posso, e vou!
- Se é assim, eu vou ficar com a sua habilidade de ter assunto com qualquer pessoa, vou ficar também com seu dom de fazer as pessoas felizes!
- E eu fico com suas piadas e talento para desenhos.
- Pois então eu que vou ficar sabendo cozinhar, e o conhecimento perfeito da gramática portuguesa!
- Não, a gramática não...
- Foi você quem começou, vai ter que se virar sem usar crases.
- Então você nunca mais saberá quando uma pessoa está mentindo!
- Você está indo longe demais com isso... E por isso eu fico com a suas boas maneiras!
- ... Não me procure mais...
- Espere! E quem vai ficar com o cachorro?
- Ele morreu há 2 anos...
- ...
E ela se foi, para uma casa nova, com uma geladeira vazia, a sala silenciosa, nenhuma roupa suja para procurar pelos cômodos. À noite, deixava a TV ligada, na tentativa de substituir os roncos que lhe faziam tanta falta. Passaria os natais sozinha agora, e agora que tinha toda aquela liberdade que tanto sonhou, não sabia exatamente o que fazer...
Ele ficou lá, tentando se adaptar à sua nova realidade, logo percebeu que de nada adiantava saber utilizar corretamente a língua portuguesa, se não possuía mais a criatividade. Conseguia levar alegria à todas as pessoas, mas não era feliz.
Cada um era, agora, o que o outro foi um dia. E como isso aqui não é um conto de fadas, tudo terminou assim mesmo, nem cartões de natal eles trocaram...
* lelek0 _____ 10:11 AM
. Segunda-feira, Março 19, 2007 .
Poema em linha reta
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
* lelek0 _____ 7:43 PM
. Domingo, Março 11, 2007 .
Hugo Chavez está passando dos limites, já bastava aquela palhaçada de dizer que o Bush tinha cheiro de enxofre. Agora ele se desloca da Venezuela até a Argentina, para influenciar protestos contra o presidente americano. Que falta do que fazer!
Aproveitando-se da visita de Bush pela América latina, ele está fazendo uma viagem alternativa pela América do sul, para destilar seu veneno chamando George W. Bush, de "hipócrita", depois de o governante americano dizer que se preocupa com os pobres da América Latina.
Chavez, chavinho, menos caro presidente!
Cresça e apareça!
* lelek0 _____ 3:17 AM
. Quinta-feira, Março 08, 2007 .
E olha que eu ganhei 120 reais juntando todas as apostas!
Ainda fico rico com o Flamengo!
* lelek0 _____ 3:04 AM
. Segunda-feira, Março 05, 2007 .
Ontem tive pesadelos durante toda a noite. Senti um mal estar ao acordar e algo me dizia para não sair da cama. Algo de terrível estava prestes a acontecer, eu sentia. Saio de casa pra tentar pegar o ônibus na parada da pracinha (a mesma praça em que fui abordada pela fofoqueira terrorista). Agora eu sei, tenho certeza: aquela praça é amaldiçoada.
Chego na pracinha, olho em volta e procuro ficar o mais distante possível da única pessoa que estava por perto (um senhor). Mas do nada surge uma mulher que deve ter brotado de alguma fenda do inferno e me dá um singelo e assustador "bom dia". Eu fiquei tão assustado com aquela aparição que, ao invés de responder o bom dia, eu pedi obrigado. Sim, eu fiz isso. Não, eu não sei conviver socialmente. Olhe, na minha opinião os homens só deviam ter andado unidos pra caçar mamutes, depois que os mamutes morreram, pronto, eu não vi mais sentido nessa coisa de andar junto.
Mas, continuando...
"Bom dia, querido..." E ela mal esperou eu dar bom dia de volta, aliás, obrigado, e já foi me mostrando uma revistinha de ordem cristã que tinha algumas questões na capa do tipo "Você acha que Deus se importa com o mundo?", "Será Deus se importa com o mundo?" ou ainda "Você acha que o mundo se importa com a opinião de Deus?" Ela chegou do meu lado, começou a folhear essa revista, apontar e fazer essas perguntas com uma calma tão espetacular e numa voz tão doce, tão doce!, que eu tive que me esforçar pra não sucumbir numa paixão. Ela era alta, loira, olhos azuis, sorriso Colgate e com certeza estava em algum curso pra se tornar anjo.
Eu respirei fundo até as paredes dos meus pulmões encostarem uma na outra e escutei o que ela tinha pra falar. Começou a dizer naquela vozinha de quem estava drogada que o mundo tinha muita guerra. Ela mostrou a foto de uma guerra. Que o mundo tinha muita fome. Ela mostrou a foto de uma criança com fome. Que o mundo tinha muita poluição. Ela mostr... zzZZzz... Certo, e a senhora que eu faça o quê, pelo amor de deus? "Você acha que Deus se importa com isso?" Olha, meu filho, só perguntando.
Mas é sério, eu realmente não sabia o que responder! Ela era de Deus, se eu dissesse que Deus não se importava ela ia ficar com raiva de mim, se eu dissesse que Ele se importava, não ia fazer sentido depois das figuras! Então eu, com bastante sapiência e algumas noções de teatro, botei a mão no queixo, fiz cara de pensativo e olhei pro infinito. Continuei naquela posição mesmo depois que ela recomeçou a falar. Daí eu entrei em transe e só voltei quando ela disse "você vai nesse ônibus?" Eu nem sabia qual ônibus era, mas disse que ia e saí correndo. No desespero quase que eu subo num caminhão de lixo, tudo pra sair de perto dela.
Até agora eu não sei o que ela queria me apresentar. Ela falou tão mal do mundo que eu achei realmente que ela quisesse me colocar contra Deus, o Criador. Mas eu não tenho nada contra ele. Só contra os filhos. E as praças dos filhos.
* lelek0 _____ 5:42 PM